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Carnaval é seguro para crianças? Uma análise psicanalítica sobre excesso e desenvolvimento infantil Carnaval é para crianças? O Carnaval é festa, cor e encontro. Mas será que todo Carnaval é lugar para crianças? A pergunta não é sobre proibição, e sim sobre desenvolvimento emocional e segurança. Pensar nisso é um exercício de responsabilidade adulta. Excessos que importam O Carnaval muitas vezes reúne fatores que aumentam a vulnerabilidade infantil: consumo intenso de álcool pelos adultos, som muito alto, calor excessivo e multidões. Esses elementos, isolados ou combinados, elevam o nível de excitação corporal e emocional da criança, reduzindo sua capacidade de elaborar o que vivencia. Calor e desidratação aumentam irritabilidade. Música muito alta sobrecarrega o sistema sensorial. Adultos embriagados têm menor capacidade de atenção, previsibilidade e contenção. Tudo isso impacta diretamente a função de cuidado de que a criança precisa para transformar estímulos em experiências simboli...

O Risco Dos Rótulos: o que a psicanálise diz sobre signo e mapa estral

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Astrologia, mapa astral e psicanálise: quando o signo vira explicação demais   É cada vez mais comum que pessoas cheguem ao consultório trazendo explicações prontas sobre si mesmas. “Sou de tal signo, por isso sou assim.” “Não consigo mudar, isso é do meu mapa.” A astrologia, para muitas pessoas, é uma linguagem importante. Ela oferece símbolos, narrativas e formas de nomear traços da personalidade. Em alguns casos, pode até funcionar como um primeiro recurso de autoconhecimento. Inclusive, já analisei mapas astrais que pacientes trouxeram, não pelo olhar da astrologia, mas pelo olhar da psicanálise. Não para confirmar previsões ou traços fixos, mas para escutar o que aquele mapa representava para aquela pessoa. O que ela dizia de si ao se apoiar ali. O que buscava explicar, justificar ou sustentar por meio daquele discurso.  Quando o mapa astral vira identidade   O ponto delicado surge quando o signo ou o mapa astral passam a ocupar um lugar de definição rígida. Mui...

Inveja não é sobre o outro: a dor psíquica em Invejosa (Netflix)

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A série Invejosa, da Netflix, abre uma janela sensível, e muitas vezes desconfortável, para um afeto humano universal: a inveja. Longe de tratá-la como uma simples rivalidade, a narrativa nos permite observar suas raízes psíquicas, suas defesas e suas dores. A protagonista, ao se comparar com amigas e com a irmã que se casam e têm filhos, ao longo das temporadas, se vê confrontada com a própria sensação de falha, especialmente após terminar um relacionamento de longa data com um homem que não quis casar com ela. Inveja como ferida narcísica Na psicanálise, a inveja tem uma função muito específica: ela surge quando o outro parece possuir algo que expõe uma falta insuportável em nós. Não se trata apenas de desejar o que o outro tem, mas de sentir dor diante da comparação. Para Melanie Klein, a inveja é um afeto primitivo que tenta atacar aquilo que simboliza abundância e completude. Na série, cada amiga que casa e a irmã tendo uma filha e morando no condomínio que ela queria ...

Frankenstein pela Psicanálise: o desejo de vencer a morte, o drama edípico e as sombras do narcisismo

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O mito de Frankenstein, seja na obra de Mary Shelley ou nas adaptações cinematográficas, revela muito mais do que horror. Ele expõe, em profundidade, conflitos edípicos, fantasias de onipotência e a tentativa desesperada de negar a morte. Sob o olhar psicanalítico, a narrativa ganha densidade: fala da recusa da castração, da rivalidade fraterna, da culpa e da impossibilidade de integrar a perda. O luto pela mãe e o impulso de vencer a morte O ponto de partida do drama de Victor Frankenstein é a ferida narcísica deixada pela morte da mãe. Em vez de luto, emerge um movimento que Freud chama de desmentido: negação ativa da realidade traumática. Victor busca, então, não criar vida, mas acabar com a morte. O Complexo de Édipo: desafiar o pai e resgatar a mãe No Édipo, o sujeito deseja o objeto materno e enfrenta a interdição paterna. Ao tentar dominar a vida e a morte, Victor ocupa uma posição impossível: a de fundador da vida, alguém que supera pai e mãe. Para Lacan, essa recusa da ord...

Pulsão de morte e compulsões: quando o excesso tenta silenciar o sofrimento

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 Na clínica, é comum que comportamentos compulsivos: uso de álcool, comida, compras, jogos ou relacionamentos abusivos, apareçam como tentativas de aliviar um mal-estar que o sujeito não consegue simbolizar. À primeira vista, parecem estratégias de busca por prazer. Mas, sob o olhar psicanalítico, revelam algo mais profundo: a atuação da pulsão de morte, conceito central na obra de Freud e frequentemente mal compreendido. Além do princípio do prazer: o território da repetição Freud, ao observar pacientes que repetiam experiências dolorosas sem conseguir extrair delas qualquer satisfação, percebeu que havia algo no psiquismo que ultrapassava o princípio do prazer. A pulsão de morte se manifesta justamente aí: na repetição que não produz vida, mas que tenta reduzir a excitação psíquica ao mínimo possível. Nas compulsões, não se busca prazer. Busca-se anestesia. Busca-se silenciar uma angústia que se impõe com força demais. É por isso que a pessoa sabe que aquilo a machuca...

O fascínio pelo mal: o que a série Tremembé revela sobre o inconsciente humano

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Entre o medo e o desejo Por que tantas pessoas se interessam por histórias de crimes reais? Por que true crimes, como a série Tremembé, que retrata presos famosos, despertam tanta curiosidade, medo e até prazer em assistir? A psicanálise oferece uma lente potente para compreender esse fenômeno. Assistir a um true crime é muito mais do que buscar entretenimento: é um encontro com o lado sombrio da condição humana, aquele que todos carregamos, ainda que inconscientemente. Freud, em seu texto “O estranho ” (Das Unheimliche, 1919), descreve o desconforto que sentimos diante do familiar que se torna estranho, ou do estranho que revela algo familiar. O true crime encarna exatamente esse paradoxo: o mal que julgamos “distante” revela, em algum nível, algo nosso. Há um espelho que nos devolve imagens perturbadoras daquilo que gostaríamos de negar. O espetáculo do superego Nas narrativas criminais, julgamos os assassinos, os motivos, as falhas morais. Mas, como aponta Freud em “O mal-es...
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  Ser uma mãe suficientemente boa: o cuidado que sustenta a vida psíquica Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, dedicou grande parte de sua obra a compreender algo essencial: como o cuidado molda o início da vida emocional . Em suas observações clínicas com bebês e mães, ele percebeu que o modo como a mãe “segura”, física e psiquicamente, o bebê é determinante para o desenvolvimento do self. Para Winnicott, ser uma mãe suficientemente boa  não é ser perfeita. É oferecer um ambiente que acolhe, protege e sustenta, permitindo que o bebê se sinta real e gradualmente confie na própria experiência. Nos primeiros tempos de vida, o bebê está em um estado de dependência absoluta. Ele não distingue o que é “eu” e o que é “outro”. Nesse período, o que garante sua continuidade de ser é a presença constante e sensível da mãe, capaz de antecipar suas necessidades antes mesmo de serem expressas, um gesto de empatia quase instintiva que Winnicott chamou de preocupação materna pr...