Carnaval é seguro para crianças? Uma análise psicanalítica sobre excesso e desenvolvimento infantil
Carnaval é para crianças?
O Carnaval é festa, cor e encontro. Mas será que todo Carnaval é lugar para crianças? A pergunta não é sobre proibição, e sim sobre desenvolvimento emocional e segurança. Pensar nisso é um exercício de responsabilidade adulta.
Excessos que importam
Quando a atenção do adulto falha
Ambientes superlotados, com circulação intensa de pessoas e adultos distraídos ou alcoolizados, aumentam significativamente a vulnerabilidade infantil. Em grandes aglomerações, a supervisão tende a se fragmentar. O que começa como proximidade pode rapidamente se transformar em desencontro.
É importante dizer com clareza: pessoas com intenção predatória procuram contextos em que há desatenção, confusão e menor controle ambiental. Não escolhem “tipos” específicos de crianças, escolhem oportunidades. A combinação de multidão, barulho, estímulo excessivo e adultos com atenção diminuída cria brechas.
Além do risco de violência sexual, há também o risco concreto de roubo. Crianças pequenas não possuem ainda recursos cognitivos e emocionais para reagir adequadamente diante de uma separação abrupta. O pânico pode paralisá las, dificultando a busca por ajuda.
Do ponto de vista psíquico, a experiência de perder a referência do adulto em um ambiente caótico pode ser vivida como ruptura da sensação de continuidade e segurança. A criança depende da presença previsível do cuidador para sustentar sua organização interna. Quando essa referência desaparece, mesmo que por minutos, instala se um estado de intenso desamparo.
Prevenção envolve medidas simples e objetivas: manter contato físico constante, evitar dispersão do grupo, não delegar supervisão a desconhecidos, utilizar identificação visível com telefone e priorizar eventos estruturados, com organização e apoio de segurança.
Responsabilidade adulta não é excesso de zelo. É reconhecer que a criança ainda não tem autonomia para se proteger em ambientes pensados para adultos.
Fantasias e o medo real
O Carnaval é também território da fantasia. No entanto, é preciso lembrar que, para a criança pequena, fantasia e realidade ainda não estão plenamente diferenciadas. A capacidade de simbolização está em construção. O que para o adulto é representação, para ela pode ser experiência concreta.
Máscaras muito realistas, maquiagem que simula ferimentos, personagens agressivos ou altamente erotizados podem ser vividos como ameaça real. A criança não dispõe ainda de recursos egóicos consolidados para relativizar a cena. Se o ambiente já é intenso em som, calor e aglomeração, o impacto emocional tende a se amplificar.
Do ponto de vista psicanalítico, imagens assustadoras podem mobilizar angústias primitivas ligadas à perda, à fragmentação e ao desamparo. Quando há excesso de estímulo sem possibilidade de mediação, o psiquismo pode não conseguir transformar a vivência em brincadeira ou narrativa. O susto não é integrado como jogo simbólico, mas sentido como invasão.
Além disso, o corpo da criança reage antes da palavra. Alterações no sono, medos noturnos, regressões e irritabilidade podem surgir não porque houve “trauma” no sentido dramático do termo, mas porque houve estímulo acima da capacidade de elaboração.
A fantasia, para ser lúdica, precisa de enquadre e de um adulto disponível para nomear, explicar e conter. Sem essa mediação, o que deveria ser brincadeira pode ultrapassar os limites do que a criança consegue metabolizar emocionalmente.
Brigas e violência em blocos
Em grandes aglomerações, episódios de tensão podem escalar rapidamente. Empurrões, brigas e descontrole acontecem. Mesmo quando a criança não é diretamente envolvida, a experiência de presenciar violência é registrada como sensação de insegurança ambiental.
Além do risco físico, há o impacto psíquico. A criança depende da estabilidade do ambiente para organizar internamente suas experiências.
Uma leitura psicanalítica
ara Donald Winnicott, o desenvolvimento emocional depende de um ambiente suficientemente bom, capaz de oferecer holding, isto é, sustentação física e psíquica. O adulto funciona como mediador entre o mundo externo e a vida interna da criança. É ele quem filtra, traduz e dá sentido aos estímulos intensos.
Quando o ambiente é marcado por excesso de excitação, imprevisibilidade e adultos alcoolizados, essa função de sustentação pode ficar comprometida. A criança, que ainda não possui recursos egóicos consolidados, depende dessa continência para integrar experiências. Sem ela, o excesso não é transformado em narrativa ou brincadeira, mas pode ser vivido como intrusão.
Sándor Ferenczi enfatizou que o trauma não se define apenas pela intensidade objetiva do acontecimento, mas pela incapacidade do psiquismo de elaborá lo. Quando há desproporção entre o estímulo e a capacidade interna de processamento, instala se uma experiência de desamparo.
Ferenczi também alertou para os efeitos psíquicos quando o mundo adulto invade o universo infantil sem considerar suas condições de maturidade. A criança tende a se adaptar ao ambiente, mesmo quando ele é excessivo, mas essa adaptação pode ocorrer às custas de defesas precoces e sobrecarga emocional.
Sob essa perspectiva, ambientes com estímulos sensoriais intensos, erotização explícita, conflitos físicos ou ausência de adultos disponíveis não são neutros para o psiquismo infantil. Eles podem ultrapassar a capacidade de simbolização própria de determinadas fases do desenvolvimento.
Conclusão
A pergunta não é se o Carnaval é bom ou ruim para crianças. A questão é em que condições ele acontece.
Infância é tempo de constituição psíquica. O aparelho mental ainda está organizando suas fronteiras, aprendendo a diferenciar fantasia de realidade, construindo recursos para lidar com frustrações, sustos e excitações. Ambientes marcados por excesso, imprevisibilidade e fragilidade da mediação adulta podem ultrapassar essa capacidade de elaboração.
Carnaval pode ser experiência de alegria compartilhada quando há contexto adequado, presença atenta e escolhas responsáveis. Mas nem todo espaço pensado para adultos precisa ser adaptado à infância.
Cuidar é considerar limites. É reconhecer que desenvolvimento emocional não acompanha o ritmo da festa.

Comentários
Postar um comentário