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Mostrando postagens de novembro, 2025

Inveja não é sobre o outro: a dor psíquica em Invejosa (Netflix)

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A série Invejosa, da Netflix, abre uma janela sensível, e muitas vezes desconfortável, para um afeto humano universal: a inveja. Longe de tratá-la como uma simples rivalidade, a narrativa nos permite observar suas raízes psíquicas, suas defesas e suas dores. A protagonista, ao se comparar com amigas e com a irmã que se casam e têm filhos, ao longo das temporadas, se vê confrontada com a própria sensação de falha, especialmente após terminar um relacionamento de longa data com um homem que não quis casar com ela. Inveja como ferida narcísica Na psicanálise, a inveja tem uma função muito específica: ela surge quando o outro parece possuir algo que expõe uma falta insuportável em nós. Não se trata apenas de desejar o que o outro tem, mas de sentir dor diante da comparação. Para Melanie Klein, a inveja é um afeto primitivo que tenta atacar aquilo que simboliza abundância e completude. Na série, cada amiga que casa e a irmã tendo uma filha e morando no condomínio que ela queria ...

Frankenstein pela Psicanálise: o desejo de vencer a morte, o drama edípico e as sombras do narcisismo

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O mito de Frankenstein, seja na obra de Mary Shelley ou nas adaptações cinematográficas, revela muito mais do que horror. Ele expõe, em profundidade, conflitos edípicos, fantasias de onipotência e a tentativa desesperada de negar a morte. Sob o olhar psicanalítico, a narrativa ganha densidade: fala da recusa da castração, da rivalidade fraterna, da culpa e da impossibilidade de integrar a perda. O luto pela mãe e o impulso de vencer a morte O ponto de partida do drama de Victor Frankenstein é a ferida narcísica deixada pela morte da mãe. Em vez de luto, emerge um movimento que Freud chama de desmentido: negação ativa da realidade traumática. Victor busca, então, não criar vida, mas acabar com a morte. O Complexo de Édipo: desafiar o pai e resgatar a mãe No Édipo, o sujeito deseja o objeto materno e enfrenta a interdição paterna. Ao tentar dominar a vida e a morte, Victor ocupa uma posição impossível: a de fundador da vida, alguém que supera pai e mãe. Para Lacan, essa recusa da ord...

Pulsão de morte e compulsões: quando o excesso tenta silenciar o sofrimento

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 Na clínica, é comum que comportamentos compulsivos: uso de álcool, comida, compras, jogos ou relacionamentos abusivos, apareçam como tentativas de aliviar um mal-estar que o sujeito não consegue simbolizar. À primeira vista, parecem estratégias de busca por prazer. Mas, sob o olhar psicanalítico, revelam algo mais profundo: a atuação da pulsão de morte, conceito central na obra de Freud e frequentemente mal compreendido. Além do princípio do prazer: o território da repetição Freud, ao observar pacientes que repetiam experiências dolorosas sem conseguir extrair delas qualquer satisfação, percebeu que havia algo no psiquismo que ultrapassava o princípio do prazer. A pulsão de morte se manifesta justamente aí: na repetição que não produz vida, mas que tenta reduzir a excitação psíquica ao mínimo possível. Nas compulsões, não se busca prazer. Busca-se anestesia. Busca-se silenciar uma angústia que se impõe com força demais. É por isso que a pessoa sabe que aquilo a machuca...

O fascínio pelo mal: o que a série Tremembé revela sobre o inconsciente humano

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Entre o medo e o desejo Por que tantas pessoas se interessam por histórias de crimes reais? Por que true crimes, como a série Tremembé, que retrata presos famosos, despertam tanta curiosidade, medo e até prazer em assistir? A psicanálise oferece uma lente potente para compreender esse fenômeno. Assistir a um true crime é muito mais do que buscar entretenimento: é um encontro com o lado sombrio da condição humana, aquele que todos carregamos, ainda que inconscientemente. Freud, em seu texto “O estranho ” (Das Unheimliche, 1919), descreve o desconforto que sentimos diante do familiar que se torna estranho, ou do estranho que revela algo familiar. O true crime encarna exatamente esse paradoxo: o mal que julgamos “distante” revela, em algum nível, algo nosso. Há um espelho que nos devolve imagens perturbadoras daquilo que gostaríamos de negar. O espetáculo do superego Nas narrativas criminais, julgamos os assassinos, os motivos, as falhas morais. Mas, como aponta Freud em “O mal-es...